Ivan Vilela e Orquestra Experimental abrem jornada de educação musical da UFSCar

Data: 25/05/17 12:07:10

A música promove naturalmente a relação entre as pessoas e abre uma série de possibilidades se ensinada, e aprendida, coletivamente. Esse é o mote da VII Jornada de Estudos em Educação Musical (JEEM) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) que acontece nos dias 20, 21 e 22 de julho no Campus São Carlos. Na noite do dia 20, o músico, arranjador e compositor Ivan Vilela se apresenta com a Orquestra Experimental da UFSCar no Teatro Florestan Fernandes.

Veja matéria anterior produzida pela FAI.UFSCar

A Jornada da UFSCar já entrou para o calendário brasileiro da educação musical. “Nosso objetivo é trazer para o interior as discussões que normalmente encontramos nas capitais e grandes centros”, salienta Natalia Severino, docente do Departamento de Artes e Comunicação da UFSCar. A expectativa é que mais de 100 pessoas de vários estados do país participem do evento.

“A área de Educação Musical é muito rica e cheia de possibilidades que vão além das ‘receitas’ de atividades para serem aplicadas em aula”, explica Natalia, que salienta ainda a importância da Jornada para compartilhar experiências e práticas que estão sendo utilizadas pelos educadores.

Os profissionais foram estimulados a enviarem seus trabalhos para a apresentação durante a jornada nas áreas de Educação Musical Humanizadora; Educação Musical Especial; Metodologias, conteúdos e didáticas em Educação Musical no ambiente escolar; Teorias e Práticas da Educação Musical em espaços diversos; e Diálogos com a Educação Musical. Foram inscritos cerca de 50 trabalhos.

A Jornada de Estudos em Educação Musical é organizada por professores e alunos e conta com a gestão administrativa da FAI.UFSCar (Fundação de Apoio Institucional ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico da Universidade). Veja a programação e outras informações no site www.jornadamusical2017.faiufscar.com ou pela página www.facebook.com/jeemufscar.

O tema deste ano é “Educação Musical em Coletividade”. Para saber como serão as apresentações, quais são as áreas de atuação do educador musical e um panorama histórico sobre o tema.

Confira a entrevista completa com a professora Natalia Severino abaixo. 

Como começou e como está hoje a Jornada de Estudos em Educação Musical da UFSCar?

A Jornada de Estudos em Educação Musical (JEEM) começou graças ao esforço de um grupo de alunos de Licenciatura em Música da UFSCar em mostrar todas as possibilidades sobre o ensino de música. Ela cresceu, entrou para o calendário de eventos da educação musical e passou a atrair participantes de várias partes do Brasil. Nosso objetivo é trazer para o interior de São Paulo as discussões que normalmente encontramos nas capita is e grandes centros e mostrar que a área de Educação Musical é muito rica e cheia de possibilidades que vão al&a mp;e acute;m das "receitas" de atividades para s erem aplicadas em aulas.

 Por que Educação Musical em Coletividade como tema desta edição da Jornada?

Porque o ensino deve estar preocupado com a formação integral dos seres humanos. Somos seres sociais e incompletos, aprendemos nas relações com os outros, por isso não se ensina sozinho, assim como também não se aprende ou se faz música sem interação humana. Para se trabalhar em coletividade é preciso estar disponível para isso, não basta reunir um grupo de pessoas. É necessário estar aberto para dialogar e construir com o outro.

Poderia citar alguns espaços onde a música é feita em coletividade ou de forma colaborativa?

A Orquestra Experimental da UFSCar é um grupo que há 25 anos faz música de forma coletiva e colaborativa. Todos são bem-vindos, não importa a idade, a condição social ou o nível de instrução musical. Cada participante da Orquestra é respeitado, considerado e ouvido. É um grupo amador, já que as pessoas não são remuneradas, que se reúne pelo prazer de fazer música e que se mantém há tantos anos porque há respeito, diálogo, compromisso e amor pela música.

Como será a programação do evento?

Na noite do dia 20 de julho teremos um concerto de abertura no Teatro Florestan Fernandes com o grande músico, compositor e arranjador Ivan Vilela e com a Orquestra Experimental da UFSCar. Durante os dias 20, 21 e 22 a Jornada acontece nàs dependências do Campus da UFSCar. Teremos palestras, mesas redondas, apresentações musicais, oficinas, minicursos e apresentações de trabalhos científicos. Haverá ainda vendas de livros e materiais didáticos no anexo do Anfiteatro Bento Prado Jr. A programação completa está no site www.jornadamusical2017.faiufscar.com. Acompanhem também a nossa página www.facebook.com/jeemufscar.

O que esperar das apresentações?

Fizemos uma chamada para trabalhos científicos e relatos de experiência, estimulamos os participantes a refletirem, pesquisarem e compartilharem suas ações em educação musical. Esses trabalhos serão apresentados em forma de comunicação oral, que podem ser debatidos entre os participantes, gerando troca de saberes e experiências.

Haverá só educadores musicais?

Não, convidaremos educadores de outras áreas do conhecimento para participar porque o intuito é expandir a percepção de mundo, o que, sem dúvida, favorece a formação pessoal e profissional de cada participante.

O que é a Educação Musical? Ela vai além do ensino de algum instrumento?

A educação musical é, como nos ensinou o professor Carlos Kater, a combinação de Música mais Educação. A educação musical tem por objetivo oferecer caminhos de conhecimento e autoconhecimento, de percepção de mundo, de reconhecimento de diferentes culturas e de diferentes formas de se expressar e se colocar na sociedade. A música é o meio para essa construção, mas é tamb&e acute; ;m o fim. A educa ção musical inclui o ensino de instrumento, mas vai a lém porque quer que as pessoas faça música, seja com instrumentos musicais, não convencionais, com a voz, com o corpo, mas tamb&eac ute;m trabalha para que elas sejam boas ouvintes e sejam capazes de compreender a música que ouvem.

Quais são as áreas de atuação do Educador Musical?

O educador musical pode atuar em muitas áreas. O que vai diferenciá-lo do musico é a sua formação humanística e o seu olhar voltado para os seres humanos. Nós vemos educadores musicais atuando com formação de grupos musicais, como bandas, fanfarras, orquestras e corais. Mais do que um regente ou um diretor musical, nesses espaços, o educador musical está preocupado em acompanhar e estimular o desenvolvimento musical dos participantes daquele grupo por meio de uma prática musical coletiva. Ele pode atuar mais diretamente no ensino de algum instrumento, que pode acontecer em diferentes espaços e que pode ser individual ou coletivo. O educador musical está preocupado não apenas com o acúmulo de técnica ou de repertorio, mas também com a expressividade, a musicalidade e o gosto por fazer música. As aulas de musicalização geralmente são oferecidas para bebês e crianças - como uma preparação para o ensino de instrumento - mas também podem ser direcionadas à adultos e idosos. O educador musical poderá também atuar com formação de professores, fazer arranjos didáticos para grupos amadores, pode trabalhar com o público da educação especial, em ofertas de ensino à distância, ensino técnico, além de outras muitas possibilidades.

Como a música se relaciona com os seres humanos e o mundo?

A música faz parte da vida. Existem pesquisas que evidenciam que desde os tempos das cavernas os seres humanos já se utilizavam o corpo e diferentes materiais, pedaços de ossos eram utilizados como flautas para fazer música de forma coletiva, em rituais e festividades. O ser humano é um ser social, por isso quando nós fazemos música com o outro, aprendemos a estar com o outro, a ouvi-lo e respeita-lo. Deste jeito, nós construímos algo que é nosso com algo que é também coletivo. Em tempos onde vemos nossa sociedade caminhando para direções cada vez mais individualizadas e competitivas, é extremamente necessário resgatar esse fazer coletivo, esse construir algo bom com o outro e a música nos chama para a coletividade.

Poderia fazer um pequeno resumo do histórico da Educação Musical brasileira para quem não é da área?

A música sempre esteve presente em nosso país. Os povos nativos tinham uma relação muito estreita com a música, que era ensinada para todos como parte dos ensinamentos compartilhados de geração para geração. Com a chegada dos portugueses começamos a falar de "educação musical”. Os jesuítas utilizaram a música para catequizar os povos indígenas. No século 19, foi exportado para o Brasil o modelo de ensino pianístico do Conservatório de Paris, um ensino tecnicista voltado para o virtuosismo, o que significa tocar perfeitamente, valorizando ex c lusivamente o repert& amp; oacute;rio da música erudita ocidental europeia. Na década de 1930, tivemos o maior e mais significante programa de Educa&c cedil;& atilde;o Musical d o país com Heitor Villa Lobos, influenciado pelo compositor e educador musical Zoltan Kodaly, que havia implantado o ensino de música para todas as escolas da Hungria. Heitor Villa Lobos levou o programa o "Canto Orfe& ocirc;nico" às escolas brasileiras baseado no canto coral, no folclore e nas noções cívicas da Era Vargas. Por diversos motivos, inclusive políticos, o programa foi se extinguindo e a música perdeu o espaço da escola. Em 2008, uma lei federal alterou a Lei de Diretrizes e Bases (Lei 11.769/08) para reforçar que a Música deveria ser um dos componentes curriculares das Artes e que as escolas teriam 3 anos para se adaptarem. Muitas escolas ainda não se adaptaram. Por outro lado, a escola nunca foi o único espaço onde a Educação Musical esteve presente, e por isso vemos tantos projetos sociais, igrejas, universidades e escolas especializadas no assunto.